Memórias da Banda Desenhada Nº169
Por Jorge Magalhães | O Louletano, 27 de Abril de 2009
Além do Mago Branco e da sua esposa, prematuramente assassinados pelos esbirros do coronel Wei, aspirante à sucessão daquele império do mal, Blasco criou nesta aventura — em que Cuto perde a sua primitiva inocência, raciocinando e agindo como um herói adulto — outras personagens intensamente dramáticas: o infortunado engenheiro, irmão de Mary, inventor dos canhões de grande poder destrutivo; o valente e leal Kha-I, único amigo e aliado que Cuto encontra na fortaleza; o pobre e heróico "Imbecil", um humilde camponês tibetano que pega em armas para vingar a destruição da sua aldeia, bombardeada pela aviação do Mago Branco.
As cenas finais de "Tragédia no Oriente" são páginas de antologia, que subjugam e empolgam pelo seu impressionante realismo: o extermínio dos prisioneiros da fortaleza, meticulosamente arquitectado (a que não é alheia a experiência de Jesús Blasco durante a Guerra Civil espanhola); a morte de Wei, o usurpador, às mãos de Kha-I, símbolo dos heróicos resistentes que actuavam na clandestinidade; a destruição dos temíveis canhões, num arrojo de valentia (quase suicida) de Cuto; e a revolta dos tibetanos chefiados por "Imbecil", cuja morte, ao cair no forno crematório, com os bolsos pejados de granadas, provoca um cataclismo de proporções dantescas, uma espécie de purificação pelo fogo que destrói todos os vestígios da fortaleza.
Mas Cuto, que nunca esteve tão perto da morte, escapando por um triz ao mesmo destino de "Imbecil", consegue mais uma vez sair vitorioso, sem uma beliscadura, nem sequer psicológica, de uma tragédia em que a hecatombe é geral.
A corajosa abnegação de Cuto, o espírito de sacrifício de Mary (sua noiva oficial, que ele conhece durante o prólogo humorístico desta aventura), a luta de "Imbecil" e dos seus amigos contra a opressão e a tirania, transcendem o mero plano da "historieta", para um público juvenil ávido de emoções fortes, compondo uma obra de grande vigor épico e rara qualidade formal, que constitui, como referiu o crítico Javier Coma, uma "implícita denúncia do fascismo e do imperialismo", sem paralelo na BD espanhola da época franquista.
A NOVA FACETA DE CUTO
Depois de escapar da sinistra fortaleza de Tok Saloung, Cuto prepara-se para viver outra grande aventura, em que Jesús Blasco se mostra no apogeu do seu talento. Mas antes vamos encontrá-lo numa espécie de castelo assombrado, onde vagueiam vultos espectrais e as armadilhas surgem a cada passo.
| continua »»
Por Jorge Magalhães | O Louletano, 27 de Abril de 2009
Além do Mago Branco e da sua esposa, prematuramente assassinados pelos esbirros do coronel Wei, aspirante à sucessão daquele império do mal, Blasco criou nesta aventura — em que Cuto perde a sua primitiva inocência, raciocinando e agindo como um herói adulto — outras personagens intensamente dramáticas: o infortunado engenheiro, irmão de Mary, inventor dos canhões de grande poder destrutivo; o valente e leal Kha-I, único amigo e aliado que Cuto encontra na fortaleza; o pobre e heróico "Imbecil", um humilde camponês tibetano que pega em armas para vingar a destruição da sua aldeia, bombardeada pela aviação do Mago Branco.
As cenas finais de "Tragédia no Oriente" são páginas de antologia, que subjugam e empolgam pelo seu impressionante realismo: o extermínio dos prisioneiros da fortaleza, meticulosamente arquitectado (a que não é alheia a experiência de Jesús Blasco durante a Guerra Civil espanhola); a morte de Wei, o usurpador, às mãos de Kha-I, símbolo dos heróicos resistentes que actuavam na clandestinidade; a destruição dos temíveis canhões, num arrojo de valentia (quase suicida) de Cuto; e a revolta dos tibetanos chefiados por "Imbecil", cuja morte, ao cair no forno crematório, com os bolsos pejados de granadas, provoca um cataclismo de proporções dantescas, uma espécie de purificação pelo fogo que destrói todos os vestígios da fortaleza.
Mas Cuto, que nunca esteve tão perto da morte, escapando por um triz ao mesmo destino de "Imbecil", consegue mais uma vez sair vitorioso, sem uma beliscadura, nem sequer psicológica, de uma tragédia em que a hecatombe é geral.
A corajosa abnegação de Cuto, o espírito de sacrifício de Mary (sua noiva oficial, que ele conhece durante o prólogo humorístico desta aventura), a luta de "Imbecil" e dos seus amigos contra a opressão e a tirania, transcendem o mero plano da "historieta", para um público juvenil ávido de emoções fortes, compondo uma obra de grande vigor épico e rara qualidade formal, que constitui, como referiu o crítico Javier Coma, uma "implícita denúncia do fascismo e do imperialismo", sem paralelo na BD espanhola da época franquista.
A NOVA FACETA DE CUTO
Depois de escapar da sinistra fortaleza de Tok Saloung, Cuto prepara-se para viver outra grande aventura, em que Jesús Blasco se mostra no apogeu do seu talento. Mas antes vamos encontrá-lo numa espécie de castelo assombrado, onde vagueiam vultos espectrais e as armadilhas surgem a cada passo.
| continua »»
