Memórias da Banda Desenhada Nº172
Por Jorge Magalhães | O Louletano, 13 de Abril de 2009
O império do mal
A luta de Cuto contra os seus perigosos adversários, de envergadura muito superior à dos habituais vilões das histórias aos quadradinhos, assemelha-se a um novo combate entre David e Golias, combate que assume proporções épicas em "Tragédia no Oriente", sem sombra de dúvida uma das maiores criações de Jesús Blasco, que nela combina uma técnica perfeita com uma acção primorosamente encadeada, em que avultam as reminiscências da 2a Guerra Mundial e dos campos de concentração nazis.
Na pele de um jovem repórter de um diário de São Francisco, nos EUA, Cuto tenta descobrir o paradeiro de alguns aviadores misteriosamente desaparecidos, entre os quais figura o irmão da sua amiga Mary. É nesta grande aventura, publicada entre os n°s 692 e 765 d'O Mosquito, que Cuto consolida definitivamente a sua reputação, pois não hesita em recorrer aos meios mais radicais — como apoderar-se de um avião de caça, cujos comandos manobra
como um piloto experimentado — para seguir a pista dos raptores. Quase por acaso, C u t o e Mary chegam a Tok Saloung, ignota região do Tibete, cercada por altas montanhas, onde descobrem a fortaleza do Mago Branco, um tirano megalómano que se veste como um general de opereta e usa o pomposo título de Imperador. Arrogante, cruel, vaidoso, ciumento e sem escrúpulos, o Mago Branco, casado com a bela e erótica Grande Senhora, é uma daquelas figuras arquetípicas e metonímicas (como Ming, o figadal inimigo de Flash Gordon) cuja perversidade exerce um estranho fascínio.
Aprisionados pelos ocupantes da fortaleza — soldados asiáticos que usam uniformes e símbolos de inspiração nazi —, os dois jovens são obrigados a servir o tirano e a sua esposa, mas Cuto não desiste de destruir os poderosos canhões com que o Mago Branco sonha dominar o mundo e nessa tentativa vive os momentos mais emotivos e dramáticos de toda a sua carreira.
Desafiando a censura do governo fascista do Generalíssimo Franco, Blasco compôs em "Tragédia no Oriente" uma autêntica sinfonia da morte, cujo pano de fundo é a sinistra fortaleza de Tok-Saloung, ambiente concentracionário onde parece reviver o pesadelo de Auschwitz: torturas, fuzilamentos, genocídios, fornos crematórios, são lugares comuns nesta saga fúnebre e sangrenta em que a obsessão de Blasco pelo horror e a crueldade, a violência e a morte — como forma de exorcismo contra a ditadura —, está bem patente.
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Por Jorge Magalhães | O Louletano, 13 de Abril de 2009
O império do mal
A luta de Cuto contra os seus perigosos adversários, de envergadura muito superior à dos habituais vilões das histórias aos quadradinhos, assemelha-se a um novo combate entre David e Golias, combate que assume proporções épicas em "Tragédia no Oriente", sem sombra de dúvida uma das maiores criações de Jesús Blasco, que nela combina uma técnica perfeita com uma acção primorosamente encadeada, em que avultam as reminiscências da 2a Guerra Mundial e dos campos de concentração nazis.
Na pele de um jovem repórter de um diário de São Francisco, nos EUA, Cuto tenta descobrir o paradeiro de alguns aviadores misteriosamente desaparecidos, entre os quais figura o irmão da sua amiga Mary. É nesta grande aventura, publicada entre os n°s 692 e 765 d'O Mosquito, que Cuto consolida definitivamente a sua reputação, pois não hesita em recorrer aos meios mais radicais — como apoderar-se de um avião de caça, cujos comandos manobra
como um piloto experimentado — para seguir a pista dos raptores. Quase por acaso, C u t o e Mary chegam a Tok Saloung, ignota região do Tibete, cercada por altas montanhas, onde descobrem a fortaleza do Mago Branco, um tirano megalómano que se veste como um general de opereta e usa o pomposo título de Imperador. Arrogante, cruel, vaidoso, ciumento e sem escrúpulos, o Mago Branco, casado com a bela e erótica Grande Senhora, é uma daquelas figuras arquetípicas e metonímicas (como Ming, o figadal inimigo de Flash Gordon) cuja perversidade exerce um estranho fascínio.
Aprisionados pelos ocupantes da fortaleza — soldados asiáticos que usam uniformes e símbolos de inspiração nazi —, os dois jovens são obrigados a servir o tirano e a sua esposa, mas Cuto não desiste de destruir os poderosos canhões com que o Mago Branco sonha dominar o mundo e nessa tentativa vive os momentos mais emotivos e dramáticos de toda a sua carreira.
Desafiando a censura do governo fascista do Generalíssimo Franco, Blasco compôs em "Tragédia no Oriente" uma autêntica sinfonia da morte, cujo pano de fundo é a sinistra fortaleza de Tok-Saloung, ambiente concentracionário onde parece reviver o pesadelo de Auschwitz: torturas, fuzilamentos, genocídios, fornos crematórios, são lugares comuns nesta saga fúnebre e sangrenta em que a obsessão de Blasco pelo horror e a crueldade, a violência e a morte — como forma de exorcismo contra a ditadura —, está bem patente.
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