Memórias da Banda Desenhada Nº160 - 163 
Por José Antunes| O Louletano

Jesus Blasco Monterde foi o mais popular e mais inter­nacional dos autores espanhóis de histórias aos quadradinhos do século vinte.

Em Portugal, nos anos quarenta e cinquenta, praticamente todos os jornais juvenis publicaram trabalhos seus.

O jovem aventureiro Cuto foi a mais popular das suas criações, chegando mesmo a ter, entre nós, nos anos 70, uma publicação com o seu nome, o "Jornal do Cuto", editado pelo incansável Roussado Pinto, prolífico argumentista e novelista, grande admirador do mestre catalão.



AVENTURAS DO ARTISTA [ILUSTRADOR]

Jesus Blasco nasceu em Barcelona, no dia 3 de Novembro de 1919, o mais velho de cinco irmãos: Pilar, Alejandro, Adriano e Augusto.

Desde pequeno manifestou vocação para o desenho e aos 14 anos ganhou o primeiro prémio num concurso do jornal "Mickey", cujo director, J. M. Huertas Ventosa, o convidou para colaborar com "historietas".

Terminado o ensino secundário com 16 anos, dedicou-se ao desenho publicitário.

No ano seguinte, deflagrou a Guerra Civil de Espanha e o jovem foi recrutado para o exército republicano. Após a derrota desta frente às forças fascistas do generalíssimo Franco, Blasco foi internado num campo de refugiados em St. Cyprien, perto de Perpignan, em França.

Ali passou fome, e para fortalecer a sua parca dieta, desenhava, com um bico de lápis, as noivas, os filhos e cenas familiares dos seus companheiros de cativeiro, a troco de algumas moedas.

Os oficiais franceses que controlavam o campo, apercebe­ram-se do talento do jovem artista e este ganhou novos e mais abastados clientes.

A primeira encomenda foi o retrato da esposa de um tenente, mais feia do que o pecado. Embora favorecendo escanda­losamente o modelo, Blasco conseguiu manter a semelhança, o que lhe mereceu os elogios dos observadores.

Não correu tão bem outra encomen­da, desta vez um coronel de cavalaria que pretendia ser retratado em grande uniforme, coberto de condecorações e montado no seu cavalo.

Tudo correu muito bem, com frequentes elogios do modelo, até chegar à cabeça do cavalo, que não agradou ao garboso coronel. Após várias tentativas e desesperado por não conseguir satisfazer o cliente, Blasco deixou de comparecer às sessões e quando o coronel mandava o seu ordenança chamar o artista, este escondia-se, e assim foi até ao dia em que o coronel foi transferido de unidade, acabando o pesadelo do jovem catalão.

Terminado o internamento de oito meses, Blasco regressou a Barcelona e às "historietas" mas, como o serviço militar cumprido no exército republicano não era contado, teve de voltar às fileiras, desta vez colocado nos Serviços Cartográficos. »»


A "FABRICA" DOS QUADRADINHOS

O quartel-general do clã Blasco estava situado numa torre de três pisos, na Calle Castellterçol, num bairro residencial perto da ponte de Vallcarca, na zona norte de Barcelona.

Ali, Jesus Blasco e os seus irmãos Adriano, Alejandro e Pilar, todos artistas por mérito próprio, colaboravam na pro­dução de inúmeras histórias para editores de vários países, sob a assinatura comum de J. Blasco.

Cuto, Anita Pequenita, Garra de Aço e Los Guerrilleros foram os mais populares das dezenas de personagens que criaram para encanto dos leitores europeus.

Nos arquivos existe uma carta do rei Juan Carlos onde refere o prazer que lhe proporcionava ler o Cuto, quando ou 10 anos.


UM VIRTUOSO DA TINTA-DA-CHINA

Os frequentadores de exposições, festivais e salões de Histórias aos Quadradinhos estão habituados a ver expostos os originais dos desenhos, executados habitualmente, ao do­bro do tamanho da reprodução impressa.

Tal se deve a que, ao reduzir o original, por processos fotográ­ficos, o traço fica mais fino, os pormenores ganham uma maior perfeição.

A película assim obtida é gravada numa chapa, que fica pronta a imprimir.

Nos tempos difí­ceis que se seguiram à Guerra Civil de Espanha, a escassez de materiais de repro­dução gráfica obrigou os desenhadores espa­nhóis a esboçar as suas páginas a lápis, em papel comum, ao tamanho da reprodução, e depois decalcar a tinta-da-china, em papel vegetal, que encarquilhava se aplicassem grandes manchas de tinta, e não permitia correcções: qualquer engano obrigava a refazer todo o trabalho. O desenho em papel vegetal era passado directamente à chapa. Isto durante dezenas de anos...

Jesus Blasco era um vir­tuoso e trabalhava exclusiva­mente a pincel, até na letragem das legendas.


O FIM DA AVENTURA

Este grande artista catalão faleceu em Barce­lona no dia 21 de Outubro de 1995.

Durante a sua longa carreira foi homenageado com inúmeras distinções entre as quais o grau de Cavaleiro da Ordem das Artes e das Letras da França, o troféu "Yellow Kid", de Lucca, Itália, o "Mosquito", do Clube Português da Banda Desenhada, o Prémio Diário de Avisos de 1977 e outros...

Da varanda da casa do pequeno Jesus Blasco, no bairro de San Gervásio, em Barcelona, avistava-se o parque de diversões do Monte Tibidabo, com a sua torre-miradouro.

Com um pedaço de giz, o miúdo de quatro anos desenhou na parede a imponente estrutura metálica.

Ao ver o desenho, o pai compreendeu que o filho tinha o futuro traçado nas artes plásticas.

Blasco nunca estudou Belas-Artes; foi completa­mente auto-didacta.

Era muito versátil. Tendo, de início, sido influenciado pelo estilo Disney, evoluiu rapidamente para um desenho realista, quase fotográfico.

Além do desenho humo­rístico e realista, também dominava a cor, realizando magníficas ilustrações e capas de livros e revistas, a guache e aguarela.

Foi também, durante muito tempo, o seu próprio argu­mentista, casando sabiamente texto e desenho.

Nas horas vagas (?!) Blasco dedicava-se à pintura de cavalete e à escultura, tendo como tema preferido a figura feminina.

Mas sempre recusou participar em exposições, entrar na "selva comercial" das galerias, dos salões, do mercantilismo da arte...

A experiência do mestre catalão como autor de histórias aos quadradinhos esteve na origem de um livro didáctico, concebido em colaboração com o editor e também artista José María Parramón. "Como Dibujar Historietas" foi publicado em 1966, em Barcelona e teve numerosas reedições, em diferentes colecções.


OS "QUADRADINHOS" EM GUERRA

Com a Europa devastada e a sofrer os horrores da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) as restrições de tráfego e comunicações faziam com que as provas das histórias aos quadradinhos americanas, em publicação nos jornais infantis europeus tivessem, por vezes, dificuldades em chegar a tempo.

Na Bélgica, por exemplo, E. P. Ja­cobs, o celebrado criador de Blake e Mortimer, teve de inventar e desenhar uma conclusão para um episódio do Flash Gordon de Alex Raymond, por não terem sido recebidas no jornal as respectivas provas, enviadas da América.

Acresce que os heróis americanos não colhiam as simpatias dos regimes dominados pelos nazis que viam (com razão...) nessas histórias elementos de propaganda anti-nazi, pois muitos personagens foram "mobilizados" para combater Hitler e os seus aliados, tais como Flash Gordon, Tarzan, o Capitão América e até o Príncipe Valente, no século VI entrou em campanha contra os hunos!

Em "Tragédia no Oriente" uma aventura de Cuto, Blasco retrata um regime autoritário e faz uma subtil alusão ao bombardeamento da aldeia de Guernica, pela aviação nazi, a pedido de Franco, exterminando deze­nas de habitantes, incluindo mulheres e crianças. A censura fascista não se apercebeu da subtil referência...

Também em Espanha faltaram duas páginas do Flash Gordon, em publicação no semanário Leyendas.

Jesus Blasco foi solicita­do a colmatar a falha, o que fez nos números 160 e 161, concluindo o episódio, com o seu reconhecido profissionalismo, embora não fosse Alex Raymond a sua referência, no que respeitava às histórias aos quadradinhos.


Livro didáctico ilustrado por Jesús Blasco, do qual houve, em 1974, uma edição em português (Brasil), que teve distribuição em Portugal - apenas em Lisboa. A informação sobre esta edição portuguesa foi-nos fornecida por Leonardo De Sá já depois deste post ter sido editado.

O seu modelo foi Milton Caniff, o genial criador de "Terry e os Piratas" e "Steve Canyon" (sem esquecer "Miss Lace") que, com a cumplicidade de outro talentoso cria­dor, Noel Sickles (autor de "Scorchy Smith") introduziu nos "quadra­dinhos" processos narra­tivos inspirados nas téc­nicas cinematográficas, tais como a variação de planos, caracterização e expressão dos persona­gens e no desenho um maior realismo, com a introdução de sombras e silhuetas e a valoração do tratamento em claro-escuro.