Memórias da Banda Desenhada Nº165
Por Jorge Magalhães | O Louletano, 16 de Fevereiro de 2009
No país dos "gangsters"
Na sua primeira aventura realista, "O Ardina Detective", Cuto — the portuguese kid, como foi baptizado n'O Mosquito — era um vendedor de jornais, sem família nem lar, vivendo pelos seus próprios meios em Nova Iorque, onde enfrentava sozinho uma quadrilha de gangsters chefiada pelo impiedoso Bracon.
O desenho de Blasco, ainda de pendor caricatural, agradou imediatamente aos leitores. Apesar de incipiente e imperfeito, revelava já, nalguns enquadramentos felizes e no emprego das sombras, o embrião de uma técnica que havia de distinguir o seu autor e torná-lo conhecido no estrangeiro, como vaticinou certa vez ao pai de Blasco o editor da revista Boliche.
Outro acerto do desenhador barcelonês consistiu na impecável construção dos seus guiões, que renovaram o estilo e a dinâmica das histórias da época — em contraste com as HQ inglesas que se publicavam n'O Mosquito —, influenciando grande número de desenhadores espanhóis, entre os quais os seus irmãos mais novos Alejandro, Adriano, Pilar e Augusto, que com ele colaboraram assiduamente, sobretudo os dois primeiros.
A atmosfera de policial negro e violento de "O Ardina Detective" — com um Cuto que se esquiva às balas, pulando de telhado em telhado, invulnerável e ágil como um gato — já funcionava como metáfora das obsessões do seu autor pela violência e a morte, temas que Jesús Blasco exploraria de forma metódica nas histórias seguintes.
A ilha do Grande Senhor
A partir da segunda aventura de Cuto, "Sem Rumo" (publicada entre os n°s 524 e 565 d'O Mosquito), acentua-se a predilecção de Blasco pelas intrigas extraordinárias, a acção épica (cujo expoente mais alto é "Tragédia no Oriente"), os ambientes exóticos e as personagens enigmáticas, que aparecem e desaparecem como fumo.
Depois de ter vencido, num alarde de agilidade e coragem, o bando de Bracon e recuperado os planos de uma arma secreta — feito que lhe valeu uma recompensa de 10.000 dólares, oferecida pelo município de Nova Iorque — Cuto regressa a Portugal. Mas, após um breve descanso, ei-lo que embarca, ao encontro de novas aventuras, num velho cargueiro, cujo comandante é uma espécie de louco furioso. A tripulação amotina-se e abandona o navio. Escapando por um triz à fúria homicida do capitão, Cuto e umajovem passageira fogem também, num bote de borracha, e vão parar a uma remota ilha do Pacífico, onde vivem uma experiência aterradora à mercê do Grande Senhor, um estranho e diabólico vilão de aparência oriental, que usa um grande ponto de interrogação sobre o peitilho engomado da sua camisa e, tal como o Dr. Moreau (personagem de um célebre livro de H.G. Wells), faz da sua ilha palco de manipulações genéticas.
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Por Jorge Magalhães | O Louletano, 16 de Fevereiro de 2009
No país dos "gangsters"
Na sua primeira aventura realista, "O Ardina Detective", Cuto — the portuguese kid, como foi baptizado n'O Mosquito — era um vendedor de jornais, sem família nem lar, vivendo pelos seus próprios meios em Nova Iorque, onde enfrentava sozinho uma quadrilha de gangsters chefiada pelo impiedoso Bracon.
O desenho de Blasco, ainda de pendor caricatural, agradou imediatamente aos leitores. Apesar de incipiente e imperfeito, revelava já, nalguns enquadramentos felizes e no emprego das sombras, o embrião de uma técnica que havia de distinguir o seu autor e torná-lo conhecido no estrangeiro, como vaticinou certa vez ao pai de Blasco o editor da revista Boliche.
Outro acerto do desenhador barcelonês consistiu na impecável construção dos seus guiões, que renovaram o estilo e a dinâmica das histórias da época — em contraste com as HQ inglesas que se publicavam n'O Mosquito —, influenciando grande número de desenhadores espanhóis, entre os quais os seus irmãos mais novos Alejandro, Adriano, Pilar e Augusto, que com ele colaboraram assiduamente, sobretudo os dois primeiros.
A atmosfera de policial negro e violento de "O Ardina Detective" — com um Cuto que se esquiva às balas, pulando de telhado em telhado, invulnerável e ágil como um gato — já funcionava como metáfora das obsessões do seu autor pela violência e a morte, temas que Jesús Blasco exploraria de forma metódica nas histórias seguintes.
A ilha do Grande Senhor
A partir da segunda aventura de Cuto, "Sem Rumo" (publicada entre os n°s 524 e 565 d'O Mosquito), acentua-se a predilecção de Blasco pelas intrigas extraordinárias, a acção épica (cujo expoente mais alto é "Tragédia no Oriente"), os ambientes exóticos e as personagens enigmáticas, que aparecem e desaparecem como fumo.
Depois de ter vencido, num alarde de agilidade e coragem, o bando de Bracon e recuperado os planos de uma arma secreta — feito que lhe valeu uma recompensa de 10.000 dólares, oferecida pelo município de Nova Iorque — Cuto regressa a Portugal. Mas, após um breve descanso, ei-lo que embarca, ao encontro de novas aventuras, num velho cargueiro, cujo comandante é uma espécie de louco furioso. A tripulação amotina-se e abandona o navio. Escapando por um triz à fúria homicida do capitão, Cuto e umajovem passageira fogem também, num bote de borracha, e vão parar a uma remota ilha do Pacífico, onde vivem uma experiência aterradora à mercê do Grande Senhor, um estranho e diabólico vilão de aparência oriental, que usa um grande ponto de interrogação sobre o peitilho engomado da sua camisa e, tal como o Dr. Moreau (personagem de um célebre livro de H.G. Wells), faz da sua ilha palco de manipulações genéticas.
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