Memórias da Banda Desenhada Nº172
Por José Batista | O Louletano, 8 de Dezembro de 2008
Ausente de Lisboa durante quase três anos, só em fins de 1953, princípio de 54, conheci Carlos Roque. Frequentava na altura a Escola de Artes Decorativas António Arroio, ainda na Almirante Barroso, a Estefânia, local onde o encontrei após me ter inscrito nas aulas da noite para acabar o curso interrompido por um chumbo, três anos antes. Ele devia estar prestes a terminar o seu, de Desenhador-Gravador Litografo, o mesmo em que me tinham inscrito em 1947/48, porém Carlos Roque frequentava as aulas diurnas. Foi na disciplina de Desenho de Letra, ministrada pelo saudoso e competentíssimo Mestre João Rodrigues Alves, que inicialmente nos encontrámos. Por essa época, uma nova fornada de ilustradores estava na forja, onde, de entre eles, Carlos Roque, Ricardo Neto e outros que a memória recusa relembrar, pontificavam, almejando um nível profissional futuro elevado, que o tempo plenamente confirmou.
Se as histórias aos quadradinhos – como então se chamava a hoje BD, galicismo criado por Vasco Granja na década de 70 – nalgum local foram ensinadas, em nenhum outro o foram melhor que nas aulas do Mestre Rodrigues Alves, na ampla sala onde, com o Mestre Mendes, ministravam a disciplina de Litografia e Desenho de Letra. Quantos artistas não utilizaram as compridas mesas de pedra ao longo de várias gerações, ensaiando os primeiros passos numa área artística rica de criatividade, exteriorizando beleza, cor e forma para alimento do olhar e satisfação da Alma? Uns conseguiram a projecção com que sonharam, outros nem tanto, porque nem a todos a vida estende a passadeira vermelha do êxito... e das oportunidades.
Rodrigues Alves era um pedagogo nato, profundamente humano e também um profissional de fina água, competentíssimo. Era o chefe da secção de desenho do jornal "O Século" e simultaneamente professor da António Arroio, e, como se isso não bastasse, íntimo amigo daquele que era considerado o melhor ilustrador de BD português da altura: Eduardo Teixeira Coelho, o qual algumas vezes levou a essa escola para espanto e deslumbramento dos seus alunos.
Beneficiando de tal ambiente, fácil foi aos alunos dessa instituição de ensino – especialmente os mais dotados na área da BD –, absorver os elementos básicos desse género artístico fornecidos pelo Mestre Rodrigues Alves, fruto da sua experiência no campo da ilustração e do grafismo, embora essa área artística – a BD – não constasse oficialmente como matéria do curso.
Dotado de inata capacidade para o desenho, Carlos Roque, alto, seco de carnes, portando óculos no nariz afilado, fazia parte desse pequeno lote de alunos vocacionados para a ilustração e o grafismo, que sofregamente sorviam as imperdíveis lições do mestre. Era, já nessa altura, um profundo admirador dos desenhos de E. T. Coelho, doença endémica da qual muitos foram 'vítimas", inclusive o autor destas linhas. Embora a minha frequência nessa Escola fosse à noite, participava com eles na feitura de um jornal de parede, exemplar único cujo nome não recordo, que afixávamos na vitrina no átrio de entrada, o qual contava com a colaboração do Ricardo Neto, entre outros elementos do grupo.
Recordo ter trabalhado com Carlos Roque no atelier publicitário de um gráfico chamado Zeiguer, situado na Rua Silva Carvalho, em Campo de Ourique, ainda durante alguns meses. Depois, quando ingressei na Agência Portuguesa de Revistas, em fins de 1954, perdi o contacto com ele. A última vez que o vi foi em Dezembro desse ano, quando lá apareceu levando o desenho de uma capa para o "Mundo de Aventuras". Sabendo que eu aí trabalhava, disse à menina Lita, a funcionária do guiché, que desejava falar comigo. Foi para mim uma agradável surpresa reencontrá-lo. Queria saber se estaríamos interessados em publicar, gratuitamente, o desenho da capa que fizera, o qual desenrolou para que o visse. Era um original maior que um A4, muito bem feito e com uma grafia muito equilibrada e apelativa. Acompanhei-o até junto de Mário de Aguiar, o director-geral da empresa, e expus-lhe o desenho, pondo-o ao corrente da situação.
Gostou imenso da capa e ficou assente publicá-la... mas paga! Acompanhei-o até à larga porta de saída e despedimo-nos. Esse aperto de mão foi o último que demos... há mais de 50 anos. O desenho da capa, conforme o combinado, foi publicado em 6/1/1955, no n° 282 dessa revista juvenil.
A publicação de "Os Passarocos de Manfredo Ycxkcoc", foi um preito de homenagem à amizade e à memória do artista, colega e amigo, que o tempo, por razões que só ele conhece, junta e afasta os simples mortais que somos. O nosso agradecimento a Monique Roque, co-autora da BD apresentada e esposa do ilustrador, pela sua gentileza para com a 9ª ARTE. As nossas saudações.
Por José Batista | O Louletano, 8 de Dezembro de 2008
Ausente de Lisboa durante quase três anos, só em fins de 1953, princípio de 54, conheci Carlos Roque. Frequentava na altura a Escola de Artes Decorativas António Arroio, ainda na Almirante Barroso, a Estefânia, local onde o encontrei após me ter inscrito nas aulas da noite para acabar o curso interrompido por um chumbo, três anos antes. Ele devia estar prestes a terminar o seu, de Desenhador-Gravador Litografo, o mesmo em que me tinham inscrito em 1947/48, porém Carlos Roque frequentava as aulas diurnas. Foi na disciplina de Desenho de Letra, ministrada pelo saudoso e competentíssimo Mestre João Rodrigues Alves, que inicialmente nos encontrámos. Por essa época, uma nova fornada de ilustradores estava na forja, onde, de entre eles, Carlos Roque, Ricardo Neto e outros que a memória recusa relembrar, pontificavam, almejando um nível profissional futuro elevado, que o tempo plenamente confirmou.
Se as histórias aos quadradinhos – como então se chamava a hoje BD, galicismo criado por Vasco Granja na década de 70 – nalgum local foram ensinadas, em nenhum outro o foram melhor que nas aulas do Mestre Rodrigues Alves, na ampla sala onde, com o Mestre Mendes, ministravam a disciplina de Litografia e Desenho de Letra. Quantos artistas não utilizaram as compridas mesas de pedra ao longo de várias gerações, ensaiando os primeiros passos numa área artística rica de criatividade, exteriorizando beleza, cor e forma para alimento do olhar e satisfação da Alma? Uns conseguiram a projecção com que sonharam, outros nem tanto, porque nem a todos a vida estende a passadeira vermelha do êxito... e das oportunidades.
Rodrigues Alves era um pedagogo nato, profundamente humano e também um profissional de fina água, competentíssimo. Era o chefe da secção de desenho do jornal "O Século" e simultaneamente professor da António Arroio, e, como se isso não bastasse, íntimo amigo daquele que era considerado o melhor ilustrador de BD português da altura: Eduardo Teixeira Coelho, o qual algumas vezes levou a essa escola para espanto e deslumbramento dos seus alunos.
Beneficiando de tal ambiente, fácil foi aos alunos dessa instituição de ensino – especialmente os mais dotados na área da BD –, absorver os elementos básicos desse género artístico fornecidos pelo Mestre Rodrigues Alves, fruto da sua experiência no campo da ilustração e do grafismo, embora essa área artística – a BD – não constasse oficialmente como matéria do curso.
Dotado de inata capacidade para o desenho, Carlos Roque, alto, seco de carnes, portando óculos no nariz afilado, fazia parte desse pequeno lote de alunos vocacionados para a ilustração e o grafismo, que sofregamente sorviam as imperdíveis lições do mestre. Era, já nessa altura, um profundo admirador dos desenhos de E. T. Coelho, doença endémica da qual muitos foram 'vítimas", inclusive o autor destas linhas. Embora a minha frequência nessa Escola fosse à noite, participava com eles na feitura de um jornal de parede, exemplar único cujo nome não recordo, que afixávamos na vitrina no átrio de entrada, o qual contava com a colaboração do Ricardo Neto, entre outros elementos do grupo.
Recordo ter trabalhado com Carlos Roque no atelier publicitário de um gráfico chamado Zeiguer, situado na Rua Silva Carvalho, em Campo de Ourique, ainda durante alguns meses. Depois, quando ingressei na Agência Portuguesa de Revistas, em fins de 1954, perdi o contacto com ele. A última vez que o vi foi em Dezembro desse ano, quando lá apareceu levando o desenho de uma capa para o "Mundo de Aventuras". Sabendo que eu aí trabalhava, disse à menina Lita, a funcionária do guiché, que desejava falar comigo. Foi para mim uma agradável surpresa reencontrá-lo. Queria saber se estaríamos interessados em publicar, gratuitamente, o desenho da capa que fizera, o qual desenrolou para que o visse. Era um original maior que um A4, muito bem feito e com uma grafia muito equilibrada e apelativa. Acompanhei-o até junto de Mário de Aguiar, o director-geral da empresa, e expus-lhe o desenho, pondo-o ao corrente da situação.
Gostou imenso da capa e ficou assente publicá-la... mas paga! Acompanhei-o até à larga porta de saída e despedimo-nos. Esse aperto de mão foi o último que demos... há mais de 50 anos. O desenho da capa, conforme o combinado, foi publicado em 6/1/1955, no n° 282 dessa revista juvenil.
A publicação de "Os Passarocos de Manfredo Ycxkcoc", foi um preito de homenagem à amizade e à memória do artista, colega e amigo, que o tempo, por razões que só ele conhece, junta e afasta os simples mortais que somos. O nosso agradecimento a Monique Roque, co-autora da BD apresentada e esposa do ilustrador, pela sua gentileza para com a 9ª ARTE. As nossas saudações.
