Álbum cartonado, formato 24 x 31 cm, 122 págs., a cores.
Edições Asa, 2003


Recordo-me, quando era ainda jovem, da modelo da minha turma no liceu artístico.
Chamava-se Suzy.

Recordo-a com afectuosa gratidão, pelas longas horas que permanecia imóvel junto ao grande forno de cerâmica. Nessa época, quando nos referíamos a uma modelo, não era uma top-model que nos ocorria.

Hoje, as modelos são essas jovens de extrema beleza que desfilam com porte altivo e a mesma passada sinuosa, qualquer que seja a extravagância que envergam; heroínas de um mundo fabuloso de luxo, de riqueza, de transgressão e de celebridade, sempre suspenso algures entre dois aviões. Nessa época, contudo, as modelos eram raparigas "não íntegras", que se dispunham a posar nuas a troco de quase nada e que eram consideradas mais próximas do mundo da prostituição do que do da arte. Na verdade, a história das modelos está indissociavelmente ligada à história da arte e o seu papel assume uma importância capital para a nossa civilização. Quantas obras-primas fundamentais não lhes são devidas! Sempre dispostas a cumular os artistas de honras e tributos, todos nós, no entanto, nos parecemos esquecer delas.

Assim, esta minha obra pretende ser uma modesta tentativa de reconhecimento. Tentei passar em revista a história da arte através das suas modelos, do seu nome, da sua história pessoal, para demonstrar que todas possuíam algo mais do que um mero corpo e até que ponto, num dado momento, cada uma delas constituiu uma genuína fonte de inspiração para cada artista. A vasta quantidade de elementos obrigou-me a limitar esta pesquisa a alguns exemplos. Optei por escolher os mais emblemáticos.

Como a mítica Frinéia, musa de Praxíteles. Ou Artemísia Gentileschi, que foi modelo de si própria. Ou o caso, ainda mais comovente, da Morte da Virgem, de Caravaggio: a modelo foi recolhida do Tibre onde se tinha afogado e foi retratada assim, com o ventre inchado pela água, mas preservando ainda uma beleza intensa capaz de, até na morte, inspirar o artista.

Modelo até ao fim. Chamava-se Phyllis.

Esta obra é-lhe dedicada.

Milo Manara no Prólogo de O Pintor e a Modelo.