Suponho que este seja um dos artigo originais do Jorge Machado-Dias publicados no Kuentro...

A personagem Tarzan, criada em 1912 pelo escritor americano Edgar Rice Burroughs (1875-1950) e publicada primeiro na revista pulp All-Story Magazine – em 1914 sairia em formato livro – é uma adaptação moderna da tradição mitológico-literária de heróis criados por animais, entroncando, por exemplo, na lenda dos gémeos Rómulo e Remo, criados por uma loba e que mais tarde fundariam a cidade de Roma.

Tarzan é filho de aristocratas ingleses que desembarcam na selva africana depois de um motim no navio onde viajavam. Com a morte de seus pais, Tarzan é criado por macacos ("manganis", na linguagem dos símios, criada por Burroughs), depois da morte dos seus pais. O verdadeiro nome da criança órfã é John Clayton III, Lorde Greystoke. Tarzan é o nome que lhe dão os macacos e que significaria "Pele Branca".

Claro que a visão de África criada por Burroughs – que nunca havia lá estado – tinha pouco a ver com a realidade do continente, inventando uma selva africana que escondia civilizações perdidas e criaturas estranhas.

A história, foi um tremendo sucesso, sendo de imediato adaptada ao cinema em 1918 – ainda “mudo” e a dar os seus primeiros passos comerciais – com o filme Tarzan of the Apes, da National Film Corporation of America, com Elmo Loncoln e Enid Markey (Jane).

Evidentemente, os comics também se apoderaram da personagem, mas mais tarde, apenas nos finais dos anos 1920, quando na imprensa diária as tiras de BD em estilo realista eram ainda praticamente inexistentes, pois o que predominava era o estilo cómico – de onde, aliás, provém a palavra “comics”. Foi Joseph H. Neebe, agente da empresa Campbell-Ewald, de Detroit, que teve a ideia de comprar os direitos da história de Burroughs e que encarregou um dos desenhadores que para ela trabalhavam, o desenhador de 35 anos Harold Foster, canadiano, emigrado para os EUA (em 1922), de adaptar Tarzan of the Apes para BD. A série começou a ser publicada em vários diários norte-americanos em 7 de Janeiro de 1929. Hal Foster realizou a adaptação daquele primeiro romance, mais tarde reunida em livro, mas recusou fazer a adaptação dos seguintes, sendo substituído por Rex Maxon. Mais tarde, num estilo mais apurado e a cores, voltaria ao Tarzan com uma prancha para os jornais de domingo, a partir de 27 de Setembro de 1931.

(Nota: o parágrafo acima foi substituído em 9 de Setembro, por uma nova redacção, corrigida por Manuel Caldas que, como todos sabemos, é especialista em Hal Foster. O meu agradecimento ao M. Caldas pelo contributo)

Mas deixemos por agora o Tarzan nos comics, de que falaremos noutra ocasião – para já, ficou aqui no Kuentro, à laia de introdução, o texto de Pedro Cleto, postado ontem.

Assim, no cinema mudo, de 1918 até 1929, primeiro pela National Film Corporation of America, depois também pela Samuel Goldwyn Studio (que em 1924, juntamente com a Metro Pictures e a Louis B. Mayer Pictures, daria origem à Metro-Goldwyn-Mayer), pela Western Pictures e pela FBO Pictures Corporation, sucederam-se oito filmes com os actores Elmo Lincoln, Gene Pollar, P. Dempsey Tabler, James H. Pierce e Frank Merrill – tendo este último protagonizado a série de 15 episódios, Tarzan The Tiger, 1929, para a Universal.

Mas foi em 1932, inaugurando o Tarzan sonoro, que a Metro-Gwoldin-Mayer, com Tarzan of the Apes, daria a conhecer o mais famoso actor na interpretação da personagem: Johnny Weissmuller e a mais sensual das Jane, Maureen O´Sullivan – muito mais sensual nas suas escassas “roupas” (enquanto a censura americana o permitiu) do que a Jane, quase sempre semi nua, da “boneca de plástico” Bo Derek, no filme de 1981.

Foi também com o primeiro filme sonoro, que se inventou o famosíssimo “grito” do Tarzan. Foi nesse filme que o grito de Tarzan surgiu pela "primeira" vez, criado por Douglas Shearer, que utilizou efeitos especiais, incluindo um iodelei austríaco invertido, em velocidade acelerada. Weissmuller (de família alemã, nascido em Timişoara, Romênia, em 1904, que nessa época fazia parte do império Austríaco) declarou sempre que tinha sido ele a criar aquele grito numa competição de iodelei que vencera quando era um garoto – mas Weissmuller emigrou, com os seus pais, para os EUA aos 7 meses de idade... Mais tarde, imitava o famoso grito (pré-gravado) tão bem que as pessoas assumiam que era ele que fazia o grito nos filmes.