Por no F. Cleto e Pina no Jornal de Notícias, Terça-Feira 24/7/12
Três acontecimentos separados por mais de meio século balizam o percurso de um dos mais emblemáticos (anti-) heróis que a banda desenhada já conheceu, Corto Maltese. A personagem celebra 45 anos neste mês.
Novembro de 1913: no oceano Pacifico, um catamaran encontra à deriva um bote com um jovem casal e, depois, uma jangada com um branco amarrado.
1943: um italiano de 16 anos é repatriado para Itália, após dois anos num campo de concentração nazi*. Julho de 1967: a revista italiana "Sgt. Kirk" número 1 estreia "Una balata del mare salato", longo romance desenhado que viria a contar 163 pranchas a preto e branco e rompia com muitos cânones estabelecidos para o género.
Mas, afinal, o que une estes três acontecimentos? O repatriado chamava-se Hugo Pratt e, apesar de jovem, tinha já uma longa vivência em vários países, que, depois de anos dedicados aos quadradinhos, já homem maduro, lhe serviu de inspiração, para escrever e ilustrar a BD citada, na qual o branco à deriva na jangada, que tinha por nome Corto Maltese, seria apenas personagem secundária de um relato protagonizado pelo oceano.
Oceano que cruzaria várias vezes, percorrendo meio mundo na esteira do seu alter-ego, da Veneza natal de Pratt a terras sul-americanas, da soalheira Etiópia às místicas terras celtas, das imensidões geladas da Sibéria à mítica Atlântida. Nessas andanças, ao lado ou em oposição ao pérfido Rasputine, em desafiador equilíbrio com o guerreiro/filósofo Cush, conheceu belas e misteriosas mulheres, aliou-se ao IRA e a outros revolucionários, foi iniciado nos mistérios das artes marciais brasileiras, do Talmude e da Tora judaicos, vivenciou o tango argentino, descobriu descendentes de civilizações perdidas, presenciou atentados, roubos e atos menos Iícitos, filosofou sobre a vida e a morte... Marinheiro errante, perseguidor de utopias, defensor das causas (que considera) justas, louco ou corajoso, irresponsável ou aventureiro, anarquista, libertário, romântico, com uma enorme sede de liberdade e seguro de ser o seu único senhor, Corto, cidadão do mundo embora natural de Malta, filho de mãe cigana e de pai marinheiro, protagonizou centenas de pranchas em quase duas dezenas de livros tendo ficado por narrar o seu desaparecimento, nos anos 30, na guerra civil espanhola.
Alter-ego do seu criador, partiu com Pratt em1995, quando ele rumou ao paraíso dos grandes criadores. Talvez por isso, os anúncios de um eventual regresso por outras mãos, até hoje, nunca se concretizaram.
(*) NOTA DO KUENTRO: Há aqui qualquer confusão, uma vez que Pratt nunca esteve preso num campo de concentração nazi. Hugo Pratt esteve na Etiópia entre 1937 e 1942, esteve preso sim, mas no campo de prisioneiros civis de Dirédoua, depois da vitória dos aliados sobre os italianos e regressou a Itália em Dezembro de 1942. A única vez que foi preso pelos alemães, mas apenas por 18 dias, foi no Outono de 1944, na cadeia de Santa Maria Maggiore, porque as SS o tomaram por um espião sul-africano. (Ver a biografia do autor em De L'Autre Côté de Corto, por Dominique Petitfaux, Edições Casterman, 1996. Ou em Hugo Pratt – O Desejo de Ser Inútil, longa entrevista com Dominique Petitfaux, Edições Relógio D’Àgua, 2005).
REEDIÇÕES E EDIÇÃO ESPECIAL NO EFEMÉRIDE.
Estreado entre nós na revista “Tintin”, em 1975, Corto foi mal-amado por muitos leitores, que habituados ao classicismo da BD franco-belga, consideraram a obra prima de Pratt "mal desenhada". Sucessivamente editadas em álbum pela Bertrand e as Edições 70 (preto e branco) e pela Meribérica/Líber (com introduções ilustradas por aguarelas de Pratt e assistentes), as aventuras de Corto Maltese estão a ser reeditadas pela Asa, numa edição em que os locais de passagem de Corto são revistados pelo escritor Marco Steiner e o fotógrafo Marco D'Anna. O aniversário que agora passa fica marcado por "Corto Maltese no Século XXI", quarta edição do fanzine "Efeméride", de Geraldes Lino, em cujas páginas dezenas de criadores gráficos nacionais, quase todos clonando o traço de Pratt, evocam, homenageiam e parodiam o marinheiro errante.


